S-4: personagens históricos (e "estóricos!")

O termo S-4 é a sigla que a Polícia Política de Vargas usava para referir-se a seu Setor de Arquivo. Em nossos "arquivos" você verá informações, biografias e até ficções sobre alguns dos personagens mais intrigantes da História.

O Jantar Barroco

O casarão em estilo colonial seria belíssimo se não pelo óbvio abandono. No quintal e na fachada as paredes já descascavam e expunham uma vegetação indesejada. O chão era barrento e havia muitas frutas apodrecidas debaixo das árvores daquele quintal, sobre o qual repousavam incontáveis pombos mortos.

O grupo foi a cavalo, com exceção de Ubirajara e Lucíola que viajaram numa das carroças da CCSaR Chegaram relativamente rápido a residência, localizada na Cidade Velha de Serafins, região marcada por casas e edifícios típicos do século XVIII. A rua estava deserta, e emanava uma desagradável aura de solidão.

Estacionando a carroça e amarrando os cavalos numa árvore, o grupo se dirigiu aos portões do casarão, esperando serem atendidos por um criado e verem as luzes acesas devido à noite que caria.

Contudo, nada disso se deu. Pelo contrário, o portão estava enferrujado e em péssimo estado. Os dois cachorros presos por correntes igualmente enferrujadas em árvores ao longe estavam caídos e com moscas sobre si.

Diante daquele cenário e da ausência de anfitriões para recebê-los, Roberto se preparou para chamar pelo caseiro. Antes que o fizesse, contudo, os portões se abriram sozinhos, como se o Além convidasse aos Caçadores para adentrar ao casarão.

                – Estou começando a acreditar em você – disse Roberto para Gregório.

Atemorizados e preparados para sacarem suas armas em qualquer caso de perigo, os quatro avançaram quintal adentro em direção à porta da casa.

Um calafrio tomou-lhes a alma quando os cachorros acordaram bruscamente, latindo com ferocidade, tão logo o grupo colocou os pés no quintal.

Gregório e Roberto reconheceram os latidos malditos. Era impossível não reconhecê-los. Não eram deste mundo e, como na noite da fazenda, faziam com que as espinhas tanto deles quanto de Lucíola e Ubirajara gelassem. O pavor elevou-se mais ainda quando, avançando pelo quintal, eles puderam ver um corpo carbonizado à esquerda e outro dilacerado a direita, em ambos os casos próximos às arvores onde estavam presos os cães.

Mesmo intimidados pelos latidos das bestas, o grupo adentrou ao casarão quando sua porta se abriu. Um criado abriu a porta:

– “Boa noite, senhores – disse o homem em trajes serviçais rasgados, sujos e que exalavam um fedor tumular – O anfitrião espera ‘vosmiceis’ na Sala de Jantar. Por aqui, por favor”.

casarao-abandonado

Por dentro, as paredes também estavam descascadas e os móveis, empoeirados. Não há mais portas, no máximo, restos de madeira apodrecida ou devorada por cupins. Um cheiro desagradável de velharias há muito guardadas tomava o lugar.

Subindo uma escadaria à direita, os Caçadores chegaram até a sala de jantar que, surpreendentemente, não correspondia ao restante do casarão. As paredes estavam bem pintadas na cor branca e o lustre despejava luzes douradas sobre o cômodo, que contava com um aconchegante tapete vermelho. A mesa era de madeira nobre, exibindo pratos e bandejas prateados caríssimos do início do século passado. Na cabeceira da mesa, inapropriadamente devido sua posição social, estava uma linda moça, de aparência angelical e delgada, vestida totalmente fora do tempo atual como se ainda fosse uma Sinhá do século XIX. Além da indumentária, chamou atenção a palidez da jovem: sua derme era tão branca que parecia feita de algodão.

– Sentem-se, por favor. – pediu ela, ignorando o fato de que estavam todos armados, desconfiados e desconfortáveis. Cuidadosamente, eles se assentaram, mas não sem antes prestar muita atenção em todos os detalhes à volta.

Gregório, que se sentou na cabeceira oposta da moça, de forma disfarçada colocou a espingarda engatilhada por debaixo da mesa, mirando-a na anfitriã e mantendo-a totalmente oculta enquanto usava a outra mão para brincar com o talher, a fim de disfarçar.

– Daí de comer a quem tem fome – recitava a Sinhá: – devido às minhas convicções pessoais, vez por outra ofereço um jantar suntuoso a pessoas menos abastadas.

Uma outra mulher, aparentemente de meia idade e com roupas de serviçal tão surradas e fedidas quanto ao do homem que recebeu os Caçadores, trouxe bandejas prateadas tampadas, colocando-as sobre a mesa.

– Foi por isso que fiz o convite para que alguns membros da valorosa milícia de nossa cidade pudesse se regalar com esta faustosa refeição – explicou a anfitriã.

Timidamente, os Caçadores abriram as bandejas, cheios de cuidados, suspeitando que tipo de susto poderiam ser acometidos nesta inusitada situação. Nada disso se confirmara: era carne de porco assado que exalava odor apetitoso, além de acompanhamento suculento para estes tipos de pratos.

– E como devemos nos referir a senhorita que nos concede tão afável graça? – perguntou Gregório.

O rosto angelical dela formou singelo sorriso.

– Chame-me de Sinhá – respondei ela.

Todos se serviram. Socão e Ubirajara  pareceram esquecer do contexto no qual estavam inseridos e se regalaram com a refeição deliciosa. Por seu turno, Gregório mal tocou na comida, observando que a moça sequer tinha um prato para comer.

– Não vai tomar parte conosco nesta refeição, senhorita? – perguntou Gregório, em tom inquisidor.

Ela novamente sorriu.

Digamos que aprecio outros tipos de refeições – respondeu ela.

Um estrondoso barulho foi imediatamente ouvido pelos Caçadores.

Um devastador tiro de espingarda.

Sinhá foi arremessada para trás com cadeira e tudo, esparramando-se sem vida ao chão com um buraco em seu peito. Isto fez com que os demais Caçadores se levantassem assustados diante daquela ilógica e imprevisível atitude.

– Endoidou homem? O que você fez Gregório?? – perguntaram Ubirajara e Roberto Socão.

Todavia, estando ainda questionando, Sinhá levantou-se do chão como se uma força sobrenatural maligna a fizesse levitar, sem nenhuma marca de sangramento em seu esbelto corpo.

– Para nos dar tempo – respondeu Gregório à pergunta de seus companheiros, com um crucifixo e uma estaca de madeira na mão, os quais sacou enquanto a monstruosidade estava ao chão.

 

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Publicado em 14 de fevereiro de 2017 por .
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