S-4: personagens históricos (e "estóricos!")

O termo S-4 é a sigla que a Polícia Política de Vargas usava para referir-se a seu Setor de Arquivo. Em nossos "arquivos" você verá informações, biografias e até ficções sobre alguns dos personagens mais intrigantes da História.

Por que alguém se torna um espião?

Mas, o que leva alguém a espionar para uma Agência de Inteligência, para a Polícia ou para o Exército?

Decerto esta era a função institucional de agentes, policiais e militares designados para missões de caráter reservado. Porém, a maioria das fontes obtidas nas disputas de espionagem são de pessoas que justamente não são agentes, policiais nem militares, mas pessoas comuns inseridas em pontos estratégicos para um determinado Estado ou Exército.

Então, e quanto a informantes, espiões sem vinculo institucional direto e outros delatores? Qual sua motivação em se tornarem espiões?

Segundo David Charney e John Irvin (Psicólogos da CIA), a questão do “porquê espionar” impõe-se mesmo para aqueles que contam anos de experiência em comunidades de Inteligência.

Outros autores, como Henry Crumpton (2013), também perseguiram esta resposta, que estaria representada no acrônimo MICE: money, ideology, compromise/coercion, ego – dinheiro, ideologia, compromisso/coerção e ego.

Crumpton, ao escrever sobre métodos de recrutamento de sua época na CIA, narra, em livro lançado em 2014, uma experiência para cada um destes exemplos de espionagem por moeda, ideologia, concessões/coerção e ego.

Já Michael Herman (1996), apesar de alertar para o fato de que os motivos para a espionagem são “tão variados quanto a natureza humana”, também menciona os fatores da ideologia, do pagamento em dinheiro ou favores, da frustração ou inadequação pessoal e até mesmo a satisfação em sentir-se importante por meio deste tipo de trabalho.

Charney e Irvin (2014) concordam com estas categorias de motivações representadas pelo MICE, que levam um indivíduo a trabalhar como espião ou informante, mas incluem entre elas a vingança/ressentimento contra um país, grupo ou mesmo individuo.

Ressentimento: o informante desejava vingar-se de alguém ou de um grupo. Indivíduos movidos pelo desejo de vendeta contra seus antigos aliados costumam ser vistos, contudo, com muita ressalva, já que poderiam exagerar em seus relatos ou, de alguma forma, permitir que os sentimentos turvassem a exatidão das informações prestadas. Além disso, não era realmente prudente confiar em desertores e traidores de grupos suspeitos. Existia a possibilidade de se tratar de um falso agente que está lá justamente para produzir informações inverídicas a fim de despistar ou até mesmo tornar-se um perigoso agente duplo. Por outro lado, o ex-membro de um núcleo suspeito seria capaz de fornecer dados valiosíssimos sobre o mesmo. Portanto, sua importância é tal que não poderiam simplesmente ser descartados, mas utilizados com cautela .

Além da mágoa com antigos aliados havia outras motivações pessoais que levavam pessoas a prestarem informações à polícia. O uso da delação poderia tirar rivais profissionais do caminho, garantir prestígio junto a empregadores e chefes de departamentos públicos ou mesmo reservar um destino desagradável, se não terrível, a inimigos e desafetos. Em regimes ditatoriais, cair nas mãos da polícia é, no mínimo um estorvo, e poderia significar situações de estupro, espancamento, tortura e perda de bens.

Aqui estamos diante do processo que se dá, em ditaduras, com relação ao “outro conveniente”, quando os próprios cidadãos utilizam-se da repressão ao “inimigo interno” para delatar inimigos do regime a fim de obter vantagens pessoais ou simplesmente resolver rixas particulares (TEIXEIRA DA SILVA, 2014).

Dinheiro e favores: o informante é movido pela ganância ou por motivos particulares específicos. A recompensa mais simples seria o dinheiro, mas alguns governos podem prover favores variados: proteção, porte de arma, passaportes, vistos, cargos públicos, promoções, etc. Em troca destas facilidades, pessoas aceitavam ou até mesmo se ofereciam para passar informações que julgassem valiosas para uma Agência. Isto permitiria, entre outros exemplos, que um trabalhador conseguisse emprego ou promoção, o membro de um sindicato assumisse a presidência do mesmo ou uma prostituta obtivesse carta branca da polícia para o métier e/ou proteção contra cafetões.

Ideologia: nem todos os espiões são pessoas movidas pela troca de favores, dinheiro ou vingança. Haveria os informantes que trabalham por patriotismo e desejo de servir a nação ou a uma causa. Obviamente, nutre-se por este tipo de espião uma alta estima, já que atuavam por um certo senso de dever, pelo sentimento de que realizavam importante serviço para seu país ou causa:

Ego: o ego – na forma de desafio, aventura, emoção ou mesmo traços de narcisismo – é um dos principais fatores motivacionais encontrado entre os indivíduos que buscam o trabalho de espionagem, e já na década de 1930 e 1940 havia um glamour no trabalho de espionagem que repercutia mesmo no cinema: citamos aqui filmes clássicos de espionagem como The 39 Steps de Hitchcock (1935) e Casablanca de Michael Curtiz (1942), além de Mata Hari, de George Fitzmaurice (1932), interpretada por Greta Garbo.

Ainda sobre o Ego, não James Bond é o exemplo mais exagerado, porém verossímil e autêntico, deste tipo de motivação.

(O texto aqui postado foi extraído de minha Tese de Doutorado “Da Ditadura à Democracia: atividades de Inteligência da Polícia Política no Estado Novo e na República de 1946).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 10 de julho de 2017 por .
Follow S-4: personagens históricos (e "estóricos!") on WordPress.com

Principais acessados

  • Nenhum
%d blogueiros gostam disto: